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Os virgens sexualmente ativos
Em Juno, a personagem principal de mesmo nome, interpretada por Ellen Page, faz um comentário pertinente a respeito do termo “sexualmente ativo”:
Seria realmente um termo estranho, não fosse sua necessidade evidente para substituir um termo ainda pior.
Para distanciar o discurso religioso do debate científico e político, eufemismos (se podemos chamá-los assim) tem sido criados para retirar a necessidade do uso de termos com conotações religiosas ou tradicionalistas.
Assim, vemos, por exemplo, um político como Barack Obama dizer que se opõe ao casamento gay, mas que é a favor de que as “uniões civis” formadas por membros do mesmo sexo tenham os “mesmos direitos” que uniões formadas por membros de sexo oposto.
Já no Brasil, ninguém se casa. Tem-se “uniões estáveis”. Juntam-se escovas. Etc. Casamento não é um conceito cristão, mas quem mais dá valor para o termo e suas implicações geralmente é um religioso conservador. Chamar algo de casamento é o que põe ou retira o valor do ato, por mais “casamentístico” que seja.
“Sexualmente ativo”, por sua vez, vem, entre outras coisas, como substituto ao obsoleto conceito de “virgindade”.
Há quem veja a virgindade como sinal de pureza. Um pedaço de pele que traz consigo a existência de moralidade. Os progressistas dizem tratar-se um aspecto psicológico, isto é, que a questão não é um pedaço de pele e sim um estado psíquico.
Como saber, afinal, de qual “virgindade” estamos falando? Para alguém que carrega consigo o primeiro conceito, uma moça virgem é aquela que mantém seu hímen. Por inocência ou ingenuidade, não lhe ocorre que ela já pode ter usado sua criatividade na cama (e outros lugares, por que não?) para eliminar a “virgindade” de outros orifícios menos protegidos.
Para os defensores do conceito de virgindade-como-estado-psíquico, o problema principal é discutir sobre o tema na presença de defensores de outros pontos de vista e convencê-los de que virgindade não é apenas um pedaço de pele.
Eis, então, os sexualmente ativos. Mesmo virgens, sexualmente ativos não deixam de ser sexualmente ativos. Livramo-nos assim de um conceito obsoleto e inútil, substituindo-o por algo mais intuitivo. Deixamos que a religião se acerte a respeito do que é virgindade nos tempos contemporâneos. A ciência e a educação sexual não podem esperar.
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Uma nota: não estou aqui fazendo nenhum tipo de discurso alarmista a respeito do comportamento sexual contemporâneo. Nem tenho interesse de entrar neste debate (pelo menos por hora). O objetivo aqui é somente mostrar os tipos de atividade a que se submetem pessoas detentores de uma visão medieval de certos comportamentos quando tentam conciliar esta medievalidade com a vida pós-moderna, dando origem a aparentes paradoxos e antíteses, como “virgens sexualmente ativos”.
Ao mesmo tempo, chamo a atenção para esta idiossincrasia, creio ocidental, que torna o intolerável tolerável a partir de simples jogos de palavra. Não diferentemente, estas ações que conciliam conceitos velhos e convenções sociais novas são também eufemismos, embora não lingüísticos, na esperança de tornar o comportamento contemporâneo mais aceitável aos tradicionalistas (com certo sucesso, aliás).