A imparcialidade e a verdade

Continuando o assunto do post anterior, que falava de questões em que a mídia não tem motivos para ser imparcial, trato agora de outra questão: a imparcialidade vs. a verdade.

A pergunta é simples: se um jornal (fictício, óbvio) apresentasse somente a verdade e nada mais do que a verdade, você o compraria, considerando-se que as alternativas restantes são um jornal que publica artigos com os quais você concorda e outro que publica todos os pontos de vista existentes?

É óbvio que preferiríamos (pelo menos no discurso) um jornal que diz sempre a verdade e nunca erra. Porém, quando iniciamos um discurso a respeito da imparcialidade, seja ao prometê-la, seja ao solicitá-la, isso mostra que já desistimos de buscar a verdade, restando apenas a tentativa de mostrar todos pontos de vista existentes, na lógica vazia de que, expondo-os, a sociedade pode escolher qual deles é, de fato, o verdadeiro.

Dei-me conta disso quando li um post a respeito de parcialidade da mídia norte-americana no excelente blog Overcoming Bias. Um comentarista proferiu o seguinte, citando Stephen Colbert:

“Reality has a well-known liberal bias.”

Obviamente, a frase é uma sátira às freqüentes acusações da direita norte-americana (ecoadas por aqui também) de que a mídia é parcial aos esquerdistas (lá, liberal é quem é de esquerda; aqui, liberalismo é a direita; as posições defendidas pelos esquerdistas estadunidenses não são diferentes daqui, é apenas uma confusão de nomes).

Mas, independentemente da visão política, o que acontece se a razão está, de fato, com o lado para o qual a mídia está sendo “parcial”? Como a mídia pode ser acusada de ser “parcial” se está dizendo a verdade? Alternativamente, por que exigimos imparcialidade quando a verdade nos é servida? É melhor ser imparcial e publicar possíveis mentiras do que limitar-se à verdade?

É óbvio que a verdade não é facilmente identificada. Às vezes é muito complexo descobrir o que é verdade. Mas é da habilidade de discernir o falso do verdadeiro deve provir o conceito de credibilidade. Se um determinado instituto de pesquisa ou meio de comunicação erra em suas previsões e matérias, ele não possui credibilidade. Se ele acerta, começa a ganhar credibilidade.

A verdade, no entanto, é que pouco nos importa a verdade1. O que importa é quem diz aquilo com o que concordamos. Todos consumimos telejornais, blogs, jornais e revistas que concordam conosco ou que, pelo menos, não nos ofendem. A verdade, não raramente, ofende. E daí procura-se razões para substituir a verdade por uma mentira mais conveniente e menos ofensiva ao nosso modo de vida.

Nossas solicitações por imparcialidade não surgem, na minha visão, da honesta busca pela verdade e sim da busca por querer que o ponto de vista que temos seja o verdadeiro e seja visto e considerado como tal. Caso contrário, não iríamos reclamar da parcialidade de um outro jornal sabendo que, em algum outro lugar, outro jornal estaria fazendo o mesmo com outro ponto de vista.

Deixe que o jornal seja parcial. Veja o que nele está escrito e veja se ele está certo ou não mais tarde (ou mais cedo, a história tem algumas lições). Mas não tolere argumentos fracos. Ser parcial é diferente de argumentar falaciosamente e proferir meias-verdades, usando comparações e generalizações não-qualificadas. Boa argumentação é o mínimo em qualquer debate.

Se o tal jornal estiver certo a maioria do tempo, quem sabe ele não é um protótipo para o nosso jornal fictício? Certamente, recompensar a imparcialidade em vez da verdade não nos deixará mais perto desta última; pelo contrário, tornará certa a eventual de publicação de mentiras.

É claro que digo acima “jornal”. Porém, não precisa ser um jornal. O jornal pode (tentar) ser imparcial e manter seções de opinião clara (no mínimo, maiores do que as de hoje). Um jornal/colunista que acerta ganha credibilidade. O que erra perde. Eventualmente, ler a “opinião” pode valer mais do que a notícia “imparcial”. Isto é, de certa forma, aliás, o motivo por trás do sucesso de muitos blogs, onde os comentários feitos pelos blogueiros valem mais do que as próprias notícias “imparciais”.

  1. Difícil de provar isso falso (e, por conseqüência, verdadeiro), reconheço. Porém, consideremos a teoria de Agendamento e também o fato de que consumidores de um determinado veículo facilmente concordam com ele e, se não concordam, procuram ler aquilo com o que concordam. Uma professora de português que tive disse que ignoramos sistematicamente as partes de um texto das quais discordamos — talvez existam estudos sobre isso.