Versos: A Festa na Praia

Tocam bem alto os instrumentos
Enquanto sopram os ventos
Independentes de nossa criação
Saltando em suaves surtos de solidão

Há quem possa prometer perdão
Mas muitos, mais mesquinhos, mentirão
E o vento, sempre sem questionar
Leva e traz, tudo, da terra ao mar

Naquela noite de música alta
Senti por um instante sua falta
E o instante só pareceu o ser
Porque nem o tempo pude perceber

E se o vento pudesse te trazer
Ficaria por mais outro instante
Sem que o desprezo, curto ou incessante
Pudesse me abater

A calma colorida consegue corrigir
O falso espelho que faz imaginar
Trazendo-me pelo caminho que faz cair
Aqueles que ousam esquecer e sonhar

Julgo-me perdido em meio ao nada
Algumas vozes criticam minha inocência
Preso neste buraco sem escada
Ouço mais insultos à minha inconseqüência

O Mais Em Vermelho desaparece
Enquanto o branco escurece
Para revelar um não-lugar
Que conforta por não julgar

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Crédito onde o crédito é merecido. A idéia aqui foi baseada na música Coma, da banda punk gaúcha Tequila Baby.

Plágio de projeto de lei

Sei já faz um bom tempo que leis não são protegidas por direito autoral. A lei 9.610/98, no incisivo IV do seu artigo nº8, lê:

Art. 8º Não são objeto de proteção como direitos autorais de que trata esta Lei:
[...]
IV – os textos de tratados ou convenções, leis, decretos, regulamentos, decisões judiciais e demais atos oficiais

É bom ver que a lei só fala sobre leis e não projetos de lei. Porém, uma vez uma lei aprovada, ela pode ser copiada, tornando este pequeno detalhe irrelevante.

Mesmo assim, um projeto, aprovado ou não, que foi pauta em uma Câmara de Vereadores ou Assembléia Legislativa, pode ser copiado por um vereador ou deputado estadual de outra cidade ou estado, sem mencionar o projeto original. Isso para mim é plágio, independentemente do que diz a lei de direito autoral.

É plágio não porque o deputado/vereador não devia copiar o projeto. Projetos bons devem ser copiados, sem dúvida. É plágio porque ele toma para si a autoria do texto. E políticos tem algo para ganhar ao apresentarem bons projetos. Mas e se os bons projetos “meus” são todos de autoria de outros?

É claro que muitos projetos são alterados várias e várias vezes antes de sua aprovação, o que significa que o texto final pode ser irreconhecível para quem viu somente o primeiro “rascunho”. Ainda sim, o crédito da idéia do projeto ainda é do político que o criou e devia ser preservado.

Honesto o político que der crédito onde o crédito é merecido.

Bola de neve? Eu também faço uma

Bola de neve é a retirada de uma conclusão exagerada a respeito de uma premissa pequena. Por exemplo, “choveu durante os últimos 2 minutos, isso vai ser uma enchente…” Mas o que isso tem a ver com qualquer coisa?

Demi Getschko, do NIC.br, disse ao IDG Now! que a falha do DNS vai fazer todo mundo correr para o DNSSEC.

A premissa é inválida porque

  • Nenhum técnico com a cabeça no lugar acreditava que o DNS era seguro (ID de 16 bits?)
  • Mesmo tendo duas semanas pra aplicar o patch de uma falha gravíssima, poucos fizeram. E estamos falando de um patch, não de uma nova camada inteira de segurança em cima do protocolo.
  • Ninguém está dizendo que o DNS, mesmo após o patch, é seguro… e ninguém se importa

Se para aplicar um simples patch demoramos tanto, apesar da gravidade, o que faz Getschko pensar que isso melhorará o caso do DNSSEC?

Ninguém se importa com a segurança do DNS. Bancos usam SSL. A maioria dos outros sites não vale a pena envenenar.

Eu posso tirar uma conclusão opostamente absurda. Vou dizer que a inércia exibida neste caso aponta para altas probabilidades de que não veremos o DNSSEC em prática tão cedo.

(Na verdade, o que eu queria era ter o otimismo de Getschko para preferir a conclusão dele à minha. Mas é difícil.)

Versos: La Vie[+]

A criança entrou no picadeiro
As fortes luzes a fazem chorar
Nas suas narinas entra o cheiro
Que só se encontra neste lugar

Logo começa o espetáculo
Saltos mortais sem redes
Como se tudo fosse um cálculo
Feito e terminado há meses

Embora nem tudo dê certo:
(Azares de shows ao vivo)
É fácil ouvir os risos por perto
E cada grito festivo

Chega o intervalo, na metade
Hora de comentar a felicidade
Que se conheceu até então

Mas o show não dá tréguas
Avança mais sete léguas
Entre as mentes de espectadores
Que assistem sem dever favores

O inevitável fim se aproxima
Hoje, ninguém caiu lá de cima
Mas amanhã pode ser diferente
Pois o espetáculo é vivente

Vivente como a platéia
Que concebe uma nova idéia
A respeito do que é mentir
E como isso sempre faz rir

Chega o fim, para qualquer idade
Tarde demais para a posteridade
Que se esquecera até então.

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sol, mar e areia de praia
	são a vitrine
de muitas moças sem porto
	exibindo seu corpo
pelo traje de origem maia
	de nome biquíni

concordo: seja feliz, pois.
	mas olhares
não te farão feliz a dois
	embora pares

Os virgens sexualmente ativos

Em Juno, a personagem principal de mesmo nome, interpretada por Ellen Page, faz um comentário pertinente a respeito do termo “sexualmente ativo”:

“Sexually active? What does that even mean?”

Seria realmente um termo estranho, não fosse sua necessidade evidente para substituir um termo ainda pior.

Para distanciar o discurso religioso do debate científico e político, eufemismos (se podemos chamá-los assim) tem sido criados para retirar a necessidade do uso de termos com conotações religiosas ou tradicionalistas.

Assim, vemos, por exemplo, um político como Barack Obama dizer que se opõe ao casamento gay, mas que é a favor de que as “uniões civis” formadas por membros do mesmo sexo tenham os “mesmos direitos” que uniões formadas por membros de sexo oposto.

Já no Brasil, ninguém se casa. Tem-se “uniões estáveis”. Juntam-se escovas. Etc. Casamento não é um conceito cristão, mas quem mais dá valor para o termo e suas implicações geralmente é um religioso conservador. Chamar algo de casamento é o que põe ou retira o valor do ato, por mais “casamentístico” que seja.

“Sexualmente ativo”, por sua vez, vem, entre outras coisas, como substituto ao obsoleto conceito de “virgindade”.

Há quem veja a virgindade como sinal de pureza. Um pedaço de pele que traz consigo a existência de moralidade. Os progressistas dizem tratar-se um aspecto psicológico, isto é, que a questão não é um pedaço de pele e sim um estado psíquico.

Como saber, afinal, de qual “virgindade” estamos falando? Para alguém que carrega consigo o primeiro conceito, uma moça virgem é aquela que mantém seu hímen. Por inocência ou ingenuidade, não lhe ocorre que ela já pode ter usado sua criatividade na cama (e outros lugares, por que não?) para eliminar a “virgindade” de outros orifícios menos protegidos.

Para os defensores do conceito de virgindade-como-estado-psíquico, o problema principal é discutir sobre o tema na presença de defensores de outros pontos de vista e convencê-los de que virgindade não é apenas um pedaço de pele.

Eis, então, os sexualmente ativos. Mesmo virgens, sexualmente ativos não deixam de ser sexualmente ativos. Livramo-nos assim de um conceito obsoleto e inútil, substituindo-o por algo mais intuitivo. Deixamos que a religião se acerte a respeito do que é virgindade nos tempos contemporâneos. A ciência e a educação sexual não podem esperar.

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Uma nota: não estou aqui fazendo nenhum tipo de discurso alarmista a respeito do comportamento sexual contemporâneo. Nem tenho interesse de entrar neste debate (pelo menos por hora). O objetivo aqui é somente mostrar os tipos de atividade a que se submetem pessoas detentores de uma visão medieval de certos comportamentos quando tentam conciliar esta medievalidade com a vida pós-moderna, dando origem a aparentes paradoxos e antíteses, como “virgens sexualmente ativos”.

Ao mesmo tempo, chamo a atenção para esta idiossincrasia, creio ocidental, que torna o intolerável tolerável a partir de simples jogos de palavra. Não diferentemente, estas ações que conciliam conceitos velhos e convenções sociais novas são também eufemismos, embora não lingüísticos, na esperança de tornar o comportamento contemporâneo mais aceitável aos tradicionalistas (com certo sucesso, aliás).

Fotos clássicas em LEGO

Aí está uma galeria de fotografias em que aprovo o uso de Photoshop:

Fotos clássicas em LEGO

O legal é que, além das fotos, há uma foto da montagem usada para tirar a foto. É impressionante como algumas delas parecem tão simples e depois o trabalho final fica maravilhoso (obviamente, graças à iluminação e ao Photoshop).

Full Disclosure: Sou fã de LEGO.

-edit- Bom deixar claro que o uso de Photoshop é mínimo, porém indispensável para remover algumas necessidades para a construção dos cenários, como barbantes.

Versos: O Homem

I

Os campos parecem até coloridos
Mas na verdade enganam quem os vê
O verde e o amarelo desapareceram
Em meio ao cinza de céus tardios

O homem caminha pelo campo
Cego, não viu verde ou amarelo
E não sente falta deles agora
Nem pensa que algo foi mais belo

II

O tempo anda rápido
Não obedece os relógios
Não quer ser parado
Como aventureiro ávido

O homem quer voltar no tempo
Corrigir erros que diz não cometer
Vive o presente pensando no passado
Com medo de que o futuro pode não acontecer

III

Palavras enchem páginas de valor
Antes brancas, só podem se orgulhar
Do momento em que recebem o presente
Que irão apenas repassar

O homem quer escrever
Tem uma idéia do que quer falar
Mas não do seu significado
Que acaba por não se perpetuar

IV

Chove em uma montanha sublime
Que tentou elevar sonhos e promessas
Mas os fez congelar sem hesitar
Quando viu que estavam altos demais

O homem sobe a montanha
A ausência de sonhos não o estranha
E uma vida que crê na própria sorte
Não sente o frio da própria morte

A falácia do argumento pela lei II: a apologia ao crime

Continuação de A falácia do argumento pela lei

No outro post mencionei que argumentar pela lei demonstra um problema de entendimento a respeito do motivo da existência das leis.

Para simplificar, no entanto, é só seguir a argumentação:

  1. Posso fazer X?
  2. –Não
  3. Por quê?
  4. –Porque fazer X é ilegal [argumento pela lei]
  5. Mas por que X é ilegal?

Aí vemos que o dizer “X é ilegal” não justifica nada, pois seria muito otimismo pensar que todas as leis, que foram escritas por humanos, são justas, éticas e perfeitas. A resposta que precisa ser dada desde o início é a que nos diz por que X é ilegal/injusto. O argumento pela lei apenas atrasa isto. Mas, como outras falácias, vai calar os desatentos.

Por outra ótica, a justificativa pela lei pode mostrar uma preocupação em evitar punições, ou seja, o estágio mais primitivo de raciocínio moral estabelecido por Lawrence Kohlberg. Quem pratica o argumento pela lei com essa mentalidade demonstra estar mais interessado em não ser punido do que estar fazendo a coisa certa. Mas o argumento pela lei ainda é desonesto, pois a justificativa não é “porque é ilegal”, mas sim “porque você vai ser punido” — quer dizer, mesmo sendo ilegal, se eu soubesse com 100% de certeza que não seria punido, faria da mesma forma.

No Brasil, o artigo 287 do Código Penal criminaliza a apologia ao crime. Apologia, de acordo com o dicionário Luft, é “discurso de defesa ou elogio”.

Ora, como vamos debater as justificativas para uma lei e tornar possivelmente legal o que em outras épocas pode ter sido ilegal se não podemos defender as práticas supostamente criminosas? A apologia ao crime é um argumento pela lei codificado no nosso próprio Código Penal… quer dizer, se é considerado crime, ninguém discute…1

Vale lembrar que o artigo que o precede, o 286, criminaliza incitar crimes, de modo que, mesmo sem a proibição da apologia, ainda ninguém poderia, num discurso que defende uma prática “criminosa”, sugerir que outros a pratiquem. Esta é uma restrição que considero válida. Porém, não se pode fazer absolutamente nada a respeito do que já é considerado crime se criar um discurso de defesa é ilegal.

O inciso VII do artigo 27 do capítulo III da lei de imprensa diz que é permitida “a crítica às leis e a demonstração de sua inconveniência ou inoportunidade”, porém não compreendo como isso pode ser permitido e a apologia ao crime proibida ao mesmo tempo. Não poderia um apologista do crime simplesmente justificar sua apologia dizendo estar sempre “demonstrando a inoportunidade” de uma lei criminal? Ou seria preciso ter diploma de jornalista para fazê-lo?

  1. A lei, que dispõe-se a manter a “paz pública”, cobre criminosos também (apologia ao criminoso). Quer dizer, uma vez o criminoso culpado, ninguém pode elogiá-lo, como se ele não tivesse nada de bom.

Versos: Sobre inspiração artística[+]

Pensei que só mais um segundo
Deste interminável sono
Poderia me levar ao trono
De algum outro mundo

Finjo que não tenho muito
Que sempre me falta algo
Reclamo sem ar, aflito!
Mas não sou melhor que um ator
Dançando sobre o palco
Que é esta mesa de plástico;
Meu personagem é de escritor
Desenho letras à pulso fraco
Que até parecem carícias
Sobre páginas submissas
Que jamais recusam
O que lhes é dado…

Que tolice!
Como se eu não visse
Todos os dias
O Sol brilhar;
Como se não houvessem
As músicas e melodias..
Como se não soubesse
Que é neste deserto feito quarto
Onde eu vou acordar
Por mais–
Que estas fantasias
Tentem me deslocar…

Ainda assim, escrevo à vontade
Na esperança de que o escrito
Faça-me lembrar de cada mito
Que um dia a imaginação
Fez parecer realidade

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ignorar a razão
     é como
dirigir na contramão

tudo fica bem
     se ninguém
vem da outra direção